árvore-humana

Esta peça é um corte de topo de um tronco de cerca de 20 cm de diâmetro. Fiz inúmeras peças assim no momento de transição da terceira fase do Galpão Contemporâneo, quando deixamos de vender para lojistas e abrimos a nossa própria loja.

Essa história desembocou na feira de artesanato do Parque do Ibirapuera, em São Paulo — e merece um relato à parte, que em breve será contado por aqui.

O Galpão soma 23 anos de trajetória. No momento, está desativado por conta da nossa mudança para o sul do país, mas logo daremos continuidade a essa caminhada.

A ideia deste blog é manter viva a memória do Galpão e compartilhar com vocês os conceitos que fomos desenvolvendo ao longo do tempo — tanto no design das peças quanto na preocupação com a sustentabilidade.

Ou seja, desde o início o Galpão sempre foi um projeto sustentável em essência.

Infelizmente, os meios da época e também o foco do trabalho não privilegiaram — e aqui assumo um certo descuido — a documentação fotográfica. Por isso, vou garimpar imagens que não apenas ilustrem, mas que ajudem a recriar o universo do dia a dia no Galpão.

Entretanto, há uma história em cada produto — e serão eles que me ajudarão a contar a história do Galpão.
Às vezes é a narrativa da criação, do desenvolvimento do projeto; outras vezes, é o próprio objeto que continua a falar por si, junto aos que o cercaram.

Este aqui, por exemplo, faz parte de uma série de arvorezinhas feitas a partir de sobras de troncos de diversos diâmetros e formatos. A regularidade nunca foi o forte do Citriodora, um tipo de eucalipto de alta densidade. Eu adquiria essas peças na área de descarte de uma empresa que vendia os retos para postes e mourões, onde juntavam troncos geralmente tortos, cheios de nós e irregularidades — aquilo que eu passei a chamar de murugundum.

Curiosamente, muitos clientes se encantavam exatamente por esse aspecto rústico e pediam, por exemplo, castiçais bem cheios de murugunduns.

Então eu aproveitava essas sobras lixando o topo. Esse gesto me remetia ao início de tudo, com um colega da faculdade, agora Centro Universitário Belas Artes de São Paulo: o artista visual e escritor Airton Sobreira.

Tudo começou nos fundos da casa dele, em Indaiatuba, interior de São Paulo. E tem uma estrada que liga Sorocaba a Campinas e Itu e Indaiatuba ficam essas duas grandes cidades. Numa ocasião fomos buscar alguns tocos numa empresa em Itu.

Uns dias depois, peguei uma pequena peça de uns 8 a 10 cm de diâmetro e comecei a lixar o topo. Lixando manualmente, lixa na mão mesmo, sem nenhum suporte. E fui lixando… lixando… não me recordo ao certo, mas devia ser uma lixa grão 100, talvez tivéssemos algumas 80. Ela empastava fácil, e eu seguia cortando mais um pedaço e lixando.

O corte de topo é aquele feito transversalmente, no diâmetro. É nele que se revelam os anéis de crescimento da árvore. Quem já tentou lixar topo sabe: é um trabalho duro, pois a lixa não corre com a mesma facilidade que numa tábua, proveniente dos cortes longitudinais.

Essa questão dos cortes pode até virar um post específico mais adiante. Por ora, sigamos: lixando, lixando e… lixando.

Até que começaram a aparecer os anéis — aquele desenho característico da madeira, anéis de crescimento.
Olha só eu aqui… negligenciando a foto acima. Ela não tem muita qualidade, mas dá para perceber bem o que estou dizendo, na verdade ela está nos dizendo…

Talvez até melhor na base, que também é uma meia bolachinha de topo. Dá pra ver, não dá?

Então o que me pegou de jeito, com uma certa euforia característica desses momentos, fui logo chamando o Airton e a Rejane pra ver o resultado. Era como se eu tivesse feito uma grande descoberta. E foi, uma grata e significativa descoberta da beleza que uma madeira pode proporcionar, um simples toquinho.

É a tal história, eu guardei esse toquinho, mas no dia a dia do Galpão acabou se perdendo. E o próprio Galpão também viveu seus altos e baixos… Ai ai, histórias que não temos pressa de sair contando… ou temos? Talvez eu tenha, mas cê você me permite, puxa uma cadeira que logo terminamos a prosa de hoje.

E para não deixarmos de falar desta arvorezinha, ela foi uma das que fotografamos. Estávamos nesse período sempre atrasados para ter produtos para a venda no sábado e domingo no Ibirapuera. As arvorezinhas raramente voltavam para o Galpão. Essa saiu num piscar de olhos.

Porém como fomos sexta a noite pra São Paulo, eu já tinha separado algumas que ainda cheiravam a verniz, pois tinham terminado a tarde, para tirar umas fotos e essa aí saiu sobre um banco cogumelo.

Mais adiante postarei produtos de uns amigos da feira Craft Design — quando vendíamos só para lojistas — que faziam arvorezinhas, Naquele período, eu aproveitava as sobras dos cortes dos móveis para criar pequenos objetos. Esse uso de cortes de topo veio apenas numa fase posterior, mais tardia.

Aliás, daria um belo artigo falar das árvores, elas que povoaram sempre o nosso universo imagético em todos os sentidos. E aqui, em particular, a ideia de usar madeira já cortada — ou seja, a própria árvore, para fazer… uma árvore.

Pra terminar, quando se fala em sustentabilidade, não estamos falando eliminar o corte de árvores.

O que é inaceitável é o desmatamento, o corte indiscriminado — crime ambiental e contra a vida, tão grave como a caça predatória que dizima uma espécie animal por causa de uma pele cobiçada ou como o chifre do rinoceronte ou ainda as presas de marfim dos elefantes, para dar alguns exemplos.

Árvores podem sim, serem cortadas e utilizadas, Porém se houver plantio e respeito ao tempo de crescimento.

E não só às árvores em si, mas ao solo em que elas prosperam.

E sim, uma árvore também é um símbolo de prosperidade da natureza. O homem, fascinado com tanta abundância, ao longo dos séculos foi desmatando para diversos usos. Até que, em muitos lugares, veio o susto: ops, está acabando.

Em alguns casos, foi detectado a tempo — em outros, nem tanto, resultando em tragédias ambientais e sociais.

Porém, ainda bem que cresce cada vez mais a adesão à regeneração do solo, uma visão da natureza que pode fazer toda a diferença na virada que precisamos dar.

Como gosto de dizer: ainda há tempo.

Mas terminemos numa imagem mais esperançosa, essa pequena peça, pra mim simboliza um desejo de ver as árvores como nós, árvore-humana, nessa pequena permuta na ordem, humana-árvore, que poderia também nomear esse trabalho, diz sempre muito de nós como diz delas.

E se errar é humano. Não plantar e não cuidar é imperdoável!

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